Histórias de todos os dias que a brisa da tarde faz entrar pela minha janela. Histórias com aroma de jasmim, salpicadas do azul que reveste o oceano longínquo...

17
Abr 09

Amanheci  a chover. Como o dia. "Que tristeza" - pensei. Mas estava enganada.  Estava muito enganada. Quase colado à minha janela surgiu um arco íris perfeito. Tão perfeito que me deixou na dúvida: existia ou era mesmo produto da minha imaginação que, por força, queria colorir o cinzento da manhã? Parecia acabadinho de pintar por uma fada... ou por um batalhão delas. Ainda não vos disse, mas acredito que as fadas pintam o arco íris só por divertimento.

De facto, nunca consegui encontrar explicações racionais que me convencessem da sua criação. Aceito que se trata de um efeito criado pelas gotas de chuva. Cientificamente não posso contestar. Mas não me chega...preciso que o sonho entre nesta dimensão e explique, por palavras que só ele sabe, o fenómeno. Aí sim, o mundo ganha mais cor.

Diz-se que no princípio tudo era branco. Só o arco íris tinha permissão para ser colorido. A pensar no assunto,  permiti que os meus olhos se banqueteassem  com o espectáculo, acompanhados por um silêncio convidativo. A música inisível  trouxe-me à memória a história de Iasá, uma lenda indígena brasileira, que me encanta. Para além do mais, também sempre acreditei que os mitos e as lendas explicam tudo de um modo mais convincente. E muito mais belo com toda a certeza.

Por isso, deixem que vos conte esta história adormecida...

Na tribo dos Cashinahuas vivia uma rapariga tão bonita que todos quantos a viam se enamoravam dela. Chamava-se Iasá e amava apenas Tupá, o filho do deus supremo Tupán…
Um dia, o demónio Anhangá, enamorado também de Iasá, cheio de inveja de Tupá, decidiu roubar-lhe a noiva. Assim, em troca de ajuda, prometeu à mãe da jovem caça e pesca abundantes durante toda a vida. A mãe de Iasá, muito ambiciosa, pensou encontrar a solução para não mais se preocupar com comida. De imediato, proibiu a filha de ver Tupá e marcou-lhe o casamento com Anhangá.
Iasá ficou deseperada. Sabia que este casamento a obrigaria a ir viver para o Inferno e que nunca mais veria o céu, onde morava, junto do pai, o seu amado Tupá…
Triste, pediu a Anhangá que a deixasse voltar a ver pela última vez o seu grande amor. Anhangá permitiu, mas impôs uma condição:
- Farás uma ferida no braço para que as gotas do teu sangue marquem o caminho que te leva ao céu. Assim, poderei seguir-te.
Conforme combinado, no dia do casamento, pouco antes da cerimónia, Iasá partiu para visitar Tupá pela última vez. Fez a ferida no braço e, à medida que avançava, as gotas do seu sangue iam formando um arco vermelho no céu.

Tupá, que era muito poderoso  ordenou ao sol, ao céu e ao mar que acompanhassem Iasá no seu caminho. Estes, para confundir Anhangá desenharam três arcos mais ao lado do vermelho. O sol, Guarací, traçou um arco amarelo; o céu, Iuaca, desenhou um arco azul claro e o mar, Pará, formou um arco azul-escuro.

Mas Iasá não conseguiu chegar ao céu, nem ver Tupá. Cada vez mais debilitada, foi caindo em terra. O seu sangue misturou-se primeiro com o arco amarelo e formou outro arco alaranjado. Depois, ao misturar-se com o azul, desenhou outro de cor violeta. Ao cair na terra, Iasá morreu numa praia banhada pela água do mar e pelos raios de sol. Do seu corpo subiu um arco verde formado pela mistura azul de Pará, com o amarelo de Guarací, convertendo-se no sétimo arco que seguia o caminho dos outros seis.
Assim se formou o primeiro arco-íris. É por isso que ele tem estas sete cores.
Vale ou não a pena acordar uma história diante de um fenómeno provocado pela doçura da chuva?
 

 

publicado por I.M. às 14:58

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