Histórias de todos os dias que a brisa da tarde faz entrar pela minha janela. Histórias com aroma de jasmim, salpicadas do azul que reveste o oceano longínquo...

16
Abr 09

Pergunto-me muitas vezes se os outros sentem o mesmo pânico que eu sinto diante de uma folha em branco. Falo de escritores, pintores e  artistas que fazem da folha o suporte da sua arte.

Hoje fui acometida por esse terrível sentimento (se é que se trata de um sentimento) e andei horas a remoer sobre o assunto. Não tenho a pretensão de ser artista. Longe de mim... mas precisava de escrever este texto sem saber por onde começar. Então, aconteceu a coisa mais estranha: um jovem, rebelde a seu modo (como é próprio da idade), aproximou-se de mim e disse:

- Estou de castigo. Tenho que fazer uma composição sobre as minhas férias da Páscoa. Não sei o que hei-de escrever. Detesto folhas em branco. São uma seca.

Espantada, porque nem sequer o conhecia, perguntei-lhe:

- O que te leva a detestar as folhas em branco? Já pensaste que são um mundo aberto a todas as possibilidades?

- Até podem ser...eu é que nunca sei o que fazer nem por onde começar...

Baixinho, como num pacto secreto, atirei do alto da minha pseudo sabedoria, num tom a roçar o gozo:

- Experimenta começar pelo princípio. Depois, lentamente, coloca o meio. E, de seguida, põe o final...

Olhou-me espantado, como se eu estivesse a dizer uma barbaridade. Foi o que pensei...

Por momentos a minha atenção foi desviada para outros assuntos. Quando me lembrei do rapaz, vi-o concentrado num esforço titânico. Fiquei arrependida ao pensar no tom que tinha usado e achei por bem dar uma ajuda. Sugerir-lhe, por exemplo, um início daqueles de frases feitas e em bom Português. Aproximei-me e comecei:

- Olha, podes começar com algo deste género:"Estas férias de Páscoa..."

Ele pestanejou, engoliu em seco e disse de mansinho:

- Não  preciso de ajuda. Estou apenas a escrever um ovo de Páscoa. Já fiz o começo e agora estou a pôr-lhe o meio. O que acha de guardar para o fim, porque tenho de o fechar, uns pingos de chuva doce? É que está a chover, já reparou?

De repente, dei-me conta de que uma folha em branco pode, efectivamente,  abrir todo um mundo de possibilidades. Sobretudo as inesperadas...

publicado por I.M. às 16:32

pesquisar