Histórias de todos os dias que a brisa da tarde faz entrar pela minha janela. Histórias com aroma de jasmim, salpicadas do azul que reveste o oceano longínquo...

24
Abr 09

Hoje não venho acordar uma história.

Apetece-me falar de histórias. Ouvi uma quantas um destes dias e fiquei fascinada. Como sempre fico quando oiço histórias.

Às vezes gostava mesmo de fazer parte integrante delas. Sonho que a minha vida começa por "Era uma vez..." e termina com "Viveram felizes para sempre." Sem provações.

Mas vida não é assim. As bruxas más andam por aí disfarçadas de tudo e mais alguma coisa e,  quando a prova está quase superada, eis que uma nova nos é colocada. A fada madrinha também não está sempre por perto. Acredito que deve andar ocupada. Afinal, nos tempos que correm, do que mais precisamos é dessa figura simpática que pode resolver  - com um simples pó - os nossos problemas.

Era tão bom se vivessemos num livro... A maldade é sempre punida e a bondade sempre recompensada, não é?

Tenho a certeza de que quando nasci algumas fadas presidiram ao meu nascimento. Uma delas deve ter feito uma terrível profecia. Embora me sinta protagonista directa, creio que a maldição caiu também em cima daqueles que amo. E isto, não posso perdoar. Nem a uma fada...

Desculpem o desabafo, mas o peso é mais leve quando repartido. Ah, se a vida fosse um conto de encantar...

Bom, eu vinha falar de histórias e não queria acordar nenhuma. Acabei por nada fazer, a não ser deixar falar uma vozinha interior que me vai sussurrando alguns disparates.

Prometo que um destes dias volto para vos contar uma história. E essa vai começar por "Era uma vez...".

publicado por I.M. às 15:08

20
Abr 09

Continuou a chover. Impiedosamente. O mundo ficou preso numa escala de cinzentos, ameaçando perder a alegria. Dizem, quando isto acontece, que o mais poderoso de todos os feiticeiros, farto da maldade dos homens, foge e refugia-se na mais alta de todas as montanhas. Com a sua partida, uma tristeza profunda abate-se sobre a natureza. Dizem que é assim desde que o mundo é mundo. Mas afinal, o que sabem as pessoas?

Só sei que havia um rapazinho que adorava ouvir histórias de flores, pois fascinava-o a sua beleza. E não lhe bastava a imaginação para as ver. Sonhava, por isso, com o dia em que partiria à procura do feiticeiro para lhe pedir que desse, de novo, cor ao seu mundo...

Os anos foram passando - porque o tempo é inexorável - e o rapazinho transformou-se num homem. Determinado, despediu-se da mãe e pôs-se a caminho para cumprir o seu propósito.

A montanha mais alta de todas as montanhas tinha  o cume invisível. Havia uma escada e o percurso foi longo e demorado.

Um dia, uma voz perguntou-lhe o que viera ali fazer. Depois de explicar, o rapaz foi levado ao país das flores. Afinal, não só existiam, como eram ainda mais belas do que nas histórias.

A voz mandou-o colher aquelas de que mais gostasse. Sem hesitar, colheu uma de cada. Quando terminou, viu-se transportado para o seu país, com ordem expressa de que as plantasse. Com  o seu regresso...

- Ó tia, é por isso que temos flores nos jardins? - perguntou o miúdo de olhos esbugalhados.

- Provavelmente. Que te parece?

- Às vezes acho estas partidas dos feiticeiros muito sem graça. O que achas que ele sentiria se ficasse sem flores nos país das flores?

Não respondi. Subitamente, o caos e o negro desenharam-se nos meus olhos. Observei atentamente o tufo de frésias coloridas do meu jardim e fiquei a pensar:

"Ainda bem que mora uma fada por baixo da minha janela".

publicado por I.M. às 21:43

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