Histórias de todos os dias que a brisa da tarde faz entrar pela minha janela. Histórias com aroma de jasmim, salpicadas do azul que reveste o oceano longínquo...

04
Mai 09

A noite começou a espreitar mesmo lá ao fundo. Vinha do fim dos tempos e trazia consigo a magia  que só a noite sabe espalhar.

A menina de olhos tristes que morava do outro lado da rua apareceu à janela. Por detrás das cortinas, e muito timidamente, fixava o olhar naquele imenso vazio que se ia pintando de azul muito escuro. Parecia procurar qualquer coisa... Provavelmente buscava o mesmo que eu. Tínhamos a mesma idade, mas nunca brincávamos juntas. Raras vezes se via na rua e sempre me intrigou aquele olhar.

Já era tarde, naquele dia,  e as primeiras estrelas começavam a tremeluzir. Desci a escada, devagar, e aproximei-me daquela janela. Fiz-lhe um sinal e ela abriu.

- Queres ver as estrelas comigo? - perguntei com naturalidade.

- Só se ficares aqui. Não posso sair...

E ali ficámos alguns minutos em silêncio. Subitamente, perguntou:

- Como apareceram as estelas? Achas que foram foguetes que rebentaram muito alto e não voltaram a descer?

- Não. Acho que não. Existem porque crianças como nós as puseram lá. - respondi, decididamente, do alto dos meus seis anos - A minha avó contou-me e eu acredito.

Ela olhou-me incrédula e sussurrou:"Conta-me como foi..."

E foi asssim que contei à menina dos olhos tristes a lenda do Céu:

Há muito, muito tempo, os homens depararam-se com um grande problema: o céu era demasiadamente baixo. Tão baixo, que não havia lugar para as nuvens…
As árvores não podiam crescer e os pássaros não podiam voar. Se tentassem, magoar-se-iam nos ramos. Mas o pior é que os homens não conseguiam andar de pé. Caminhavam curvados e não viam para onde iam…
As crianças não tinham esse problema, mas sabiam que um dia iam ser adultas e lhes aconteceria o mesmo. Então, resolveram fazer qualquer coisa…
Numa noite, reuniram-se e tentaram empurrar o céu. Os adultos riam-se. Mas as crianças não davam importância. Cortaram paus grandes e finos e, num abrir e fechar de olhos, ao mesmo tempo, havia inúmeras varas no ar. Um…dois…três…um grito…
Nada aconteceu. Tudo continuou igual…
Pensaram e voltaram a pensar e…
Na noite seguinte, tentaram de novo. Desta vez, utilizaram varas mais compridas. Um…dois…três…um grito…
Mas nada aconteceu.

Os adultos continuavam a rir daquela atitude que consideravam pateta. A quem lembraria empurrar o céu? Mas as crianças não desistiram. Afinal, era o seu futuro que estava comprometido. Por isso, as varas eram muito maiores.

Com muita força, as crianças empurraram o céu e colocaram-no no lugar onde hoje está. De noite, porém, deram conta que lhe tinham aberto buracos negros com as varas. Ficaram assustadas. De repente, quando pensavam que o céu ia ficar para sempre esburacado, em cada buraco feito pelas varas das crianças surgiu uma estrela. O céu cintilava e a felicidade dos petizes era enorme. É por isso que hoje há estrelas no céu: porque as crianças tiveram coragem, todas juntas, de empurrar o céu para o seu lugar.
Quando acabei, vi a lágrima teimosa que corria na face pálida da menina de olhar triste.
- Então é por isso...- disse.
A voz da minha mãe quebrou o encantamento do momento. Apenas tive tempo para um "Adeus" apressado e fui embora.
Nunca mais vi a menina de olhos tristes. Só sei que, depois dessa noite, a minha rua ficou mais pobre...
Ainda hoje, em noites estreladas, me lembro daquele olhar. E no céu uma estrela brilha muito mais e só para mim. É aí que estico os braços...

 

publicado por I.M. às 15:34

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