Histórias de todos os dias que a brisa da tarde faz entrar pela minha janela. Histórias com aroma de jasmim, salpicadas do azul que reveste o oceano longínquo...

15
Jul 09

Há já algum tempo que não passava por aqui. A ocupação tem sido mais do que muita.

Hoje gostaria de deixar, em jeito de agradecimento, um pequeno esboço de história (desenhado à pressa) para os "meus 24 magníficos". Eles sabem quem são.

 

Era uma vez...24 formandos
 
Era uma vez uma casa tão grande que mais parecia um palácio. Conhecem o palácio Madeira Torres? É esse mesmo: o palácio das fadas e dos magos da sabedoria, que tecem durante todo o tempo saberes para colorir a vida de centenas de crianças.
Era uma tarde de Verão quente e todos estavam muito ocupados com o encerramento do ano lectivo. Mas uma bruxa má, muito poderosa, havia lançado um feitiço (sob a forma de lei) que obrigava todos aqueles magos e fadas a ficar encerrados, com muito calor, na sala mágica do palácio Madeira Torres, durante três horas, duas vezes por semana. Assim seria até ao dia 14 de Julho, sob pena – se não cumprissem – de ver ameaçada a sua avaliação.
Nenhuma das fadas ou dos magos, por mais que tentasse, conseguiu quebrar o encanto. Por isso, a profecia tinha que cumprir-se.
Assim, naquele dia 16 de Junho, cada um foi entrando na sala mágica e misteriosa, pensando no que iria acontecer. Como o mistério anda sempre de mão dada com o perigo, ninguém estava seguro.
Do fundo da sala, uma figura pequena e rebelde tentou atenuar a malvada profecia e disse:
- Não querem ir embora? Ainda estão a tempo…Provavelmente estão no local errado. Há outras alternativas…
Os magos e as fadas lá foram dizendo que ficariam e que a maldição da bruxa tinha que consumar-se. Ninguém deu ouvidos à pobre figura pequena e rebelde.
Naquele fim de tarde, depois de três horas a falar de fadas, duendes e outros seres, já todos tinham percebido a dimensão da maldição. No entanto, pouco havia a fazer e desistir era uma palavra que não constava do vocabulário daquele simpático grupo.
Entretanto, a tal pequena figura rebelde ia pensando na melhor maneira de levar a cabo a profecia da bruxa má, contrariando a sua maldade.
O tempo ia passando, mas o calor não dava tréguas. Também ele fazia parte do castigo.
A pouco e pouco, magos e fadas encheram-se de coragem e foram-se dando a conhecer.
A fada Lúcia foi das primeiras. Obstinada e objectiva, com ela é sempre a direito.
- Não preparo a sala. Leio e pronto. E, já agora, utilizo tudo de forma pedagógica.
Disse-o num fôlego e de forma definitiva. Porque a fada Lúcia era assim mesmo: definitiva.
Mas a fada Rute contrapôs:
- É tão bom trabalhar histórias. Eles gostam tanto. Tenho um avental mágico que constrói histórias vindas do fim dos tempos…E o sorriso iluminou-se-lhe, porque esta fada tinha o dom de saber sorrir.
A fada Maria João respondeu:
- Podias trazer. Eu também adoro histórias. Tenho até um livro que marcou a minha infância…
E a serenidade continuou a transparecer de todos os seus traços. Era a imagem da tranquilidade, a fada Maria João.
Mas a fada Anabela, que gosta mesmo de príncipes encantados e cavalos brancos, disse:
- Esta história não me cheira. Afinal, o que é uma carrapatinha?
E a confusão estava instalada. A aventura começava ali.
- E se partilhássemos as nossas experiências? Talvez a maldição não fosse tão pesada – ouviu-se.
Se bem o disseram, melhor o fizeram. Abriram portas à fantasia e foi um verdadeiro desfile de poções e receita mágicas, de dons concedidos e a conceder. Aconteceu verdadeira magia na sala mágica…
Com o decorrer do tempo, outros magos e fadas decidiram mostrar um pouco mais de si.
A fada Ana Luísa começou a torcer o nariz aos ingredientes:
- Eu leio. Não conto. Dizem que leio muito bem. Mas não conto. E as fadas vêm de onde? O que são histórias tradicionais?
As interrogações sucediam-se e a dúvida parecia instalada.
- Vê-se que não estiveste na primeira sessão. – disse a fada Helena. E tirou um livro já maltratado pelo tempo e pelo uso. – “Este é da minha infância e ainda hoje o utilizo…” A voz tremeu, a emoção flutuou e a ternura dos seus olhos serenos inundou o espaço. A fada Helena era muito convicta e via-se que gostava do livro, a valer.
De súbito, uma caixa cor-de-rosa disparou para a mesa redonda, com a fada Catarina a tentar segurá-la. Vinha cheia de magia e não conseguia estar sossegada, pois os seus habitantes eram irrequietos
A fada Catarina abriu-a, tirou o livro que lá se encontrava e deu liberdade momentânea àqueles seres que, rapidamente, ganharam vida. A sensibilidade daquela fada era o seu maior dom e ela partilhou-o com todos.
- Contei esta história na escola da minha filha e, ainda hoje, algumas crianças (agora já crescidos) me falam dela. Resolvi trazê-lo. - disse
Bonecos e livros andaram de sarabanda em todas as mãos.
- Não percebi bem o que se pretendia e trouxe As Férias do Caracol – disse a fada Ida. E, com toda a garra, mostrou as imagens da história, enquanto falava com entusiasmo, de modo a desafiar a nossa imaginação.
- Nós também fizemos um Power Point – disseram em coro as fadas Anabela e Edite – Foram os meninos que o realizaram… Como num sonho, fomos transportados pelo ar dentro de uma bola de sabão. Mas não era uma bola de sabão qualquer. Era uma Bola de Sabão Mágica.
- Pois eu - disse o mago Salvador, convicto e bem-humorado – trabalhei a Menina do Mar e as Fábulas.
E num ápice, mostrou as ilustrações e a história recontada. Aquela, garanto, não era uma edição comercial ou de publicidade. É que o mago Salvador preocupava-se com as questões de Marketing e publicidade associadas às vendas dos livros. Mesmo sendo um mago solitário, rapidamente se adaptou e a sua boa disposição contagiou todos.
Entretanto, timida e sorrateiramente, a fada Karen tinha tomado o seu lugar. E enquanto ela falava, com voz de fada (que não é uma voz qualquer) ouviam-se cigarras e formigas que passavam – ternurentas – de mão em mão.
- Eu também trabalhei uma lenda – disse a fada Luísa. E acrescentou rapidamente: - Não sei se é a verdadeira, mas não sabia outra e usei esta.
Fez-se chuva e vento e Novembro tomou conta da sala. S. Martinho tinha chegado mais cedo. Nem foram precisas mais palavras para ver o carinho com que a actividade foi feita. Bastava olhar as fotografias…
- Bom, eu não deixo que eles pintem as nuvens de azul. As nuvens não são azuis. – disse a fada Luísa num pronto. Prática, esta fada queria tudo muito definido e certinho. Era mesmo palavra de fada! Seria um caso perdido? Tudo ainda podia acontecer na sala mágica do palácio…
Muito calada e sossegada, no seu cantinho, a fada Júlia surpreendeu todos quando disse:
- Eu conheço a “Lenda do Céu”.
Esta fada raramente se manifestava, mas parecia absorver todas as receitas que iam sendo dadas. Fada reservada esta…
Mesmo ao lado, a fada Conceição era muito curiosa e fazia perguntas. Ainda que não não perguntasse, as suas intervenções eram muito pertinentes. Uma boa fada sabe sempre o que fazer e quando fazer…
- Pois eu acredito em histórias. Trouxe alguns exemplos em cartões. Só faltou escrever a frase por trás. Mas vou fazer. – disse a fada Luísa com o seu ar maternal de quem quer proteger o mundo.
Muito mais corajosa foi a fada Natividade. Cheia de energia aceitou o desafio de contar uma história. A princípio estava nervosa…”tanta gente”, pensou “ e tão crescidos…” Mas depois, com a boa disposição que a caracterizava, foi em frente. E resultou.
- Ah, esqueci-me no outro dia de trazer um livro circular que se pode fazer para trabalhar o ciclo da água. Mas hoje trouxe. – disse a fada Lúcia.
E o livrinho circular da disponível fada foi circulando pela sala, até ficar para sempre nas mãos das fadas Edite e Anabela.
- Percebi, agora, que conto histórias à “palhaço”. Vou ter que conter os gestos. – disse a fada Susana com ar decidido. – “Não, eu não conto. Leio.” – concluiu. A fada Susana não era muito faladora, mas era interessante.
- Deixa lá, eu também leio – avançou timidamente o mago Elias, que segurava na mão O Aquário. “ E mais” – continuou – “afinal o livro tem boas ilustrações e eu pensava que não..”, suspirou.
 Da boca do objectivo e calado mago João Carlos nem uma palavra. Impenetrável.
- Eu tinha medo de ter uma desilusão e ver cair por terra todas as histórias e personagens de que gostava, disse a fada Márcia. No seu tom quente fez soar a frase como se fosse mesmo um dos seus piores receios. E continuou:
- Aproveito para dizer que comprei este livro no supermercado. Adorei a ilustração e disse à minha mãe que tinha que o comprar…
E ficou suspenso. Era um livro magnífico, cuja origem da história a fada Márcia não conhecia muito bem. Mas ficou feliz, quando se apercebeu que tinha feito uma escolha inteligente.
- Este está desmaiado. As cores são muito desmaiadas e não gosto dele. – adiantou o mago José. Era um mago reservado e não estava de todo apaixonado por estas coisas de fadas.
Um dia chegou à sala a fada Henriqueta. Vinha mais tarde, mas ia juntar-se a todo o grupo. A sua persistência fez dela um exemplo e, sem nos apercebermos, trouxe consigo o momento mágico do Natal.
Tempos depois, fadas e magos viram chegar ao fim a profecia. Tinha-se cumprido. Mas, nessa altura, já não era aprendizes e as nuvens podiam ser de qualquer cor. Mesmo aos quadrados ou às riscas. Comprar um livro era agora mais difícil, pois a escolha tinha que ser bem feita, e muitos ensaios para contar tomavam o seu curso.
Era tempo de voltar aos seus reinos, descansar e preparar novas poções e receitas, pois no próximo ano é necessário voltar a colorir o sonho dos saberes de centenas de meninos.
 
NOTA: a figura pequena e rebelde ficou muito feliz, pois tinha contribuído para que a profecia da bruxa malvada não se cumprisse em todo o seu rigor e, por isso, não fosse tão pesada.
Assim, foi com alegria que viu voltar aos seus domínios verdadeiros magos e verdadeiras fadas da sabedoria que acreditam que o mundo do “Era uma vez..” pode, de facto, ser encantado.
 

 

publicado por I.M. às 15:26

14
Mai 09

Era uma vez...

 

Costumavam começar assim as histórias da minha avó. E mal começavam, eu ficava rendida àqueles mundos e àquelas gentes que tinham a capacidade de me fazer esquecer do meu espaço e do meu tempo... Gigantes, bruxas e fadas, princesas e rainhas malvadas, piratas e génios que chegavam nos seus tapetes voadores transportavam-me para longe...Para muito longe...

Gostava particularmente de ouvir histórias que me explicavam, de forma mágica, o que me rodeava. Ou seja, o vento existia porque um gigante ressonava alto... A chuva caía porque a fada do céu sentia falta do seu amor. E aquelas grossas gotas eram lágrimas da pobre rapariga. Já agora, deixem que vos conte a história da sétima filha do Imperador Celestial. Num sussurro, porque não quero despertar a ira de um homem tão poderoso...

Em tempos que já lá vão, o céu era muito, muito azul, sem nuvens.

O Imperador Celestial achava-o monótono e, por isso, ordenou às suas sete filhas que fiassem e tecessem para fazer um vestido para o céu…
Elas experimentaram, mas os panos saíram brancos e cinzentos. Assim, o céu continuava monótono e pálido.
A sétima filha do Imperador, a mais nova de todas, teve uma ideia inspirada pelas flores de sete cores do jardim: tecer panos coloridos.
Tingiu os fios com as sete cores das flores e conseguiu tecer um pano lindíssimo de sete cores. As irmãs ficaram admiradas e decidiram, todas juntas, vestir o céu de roupa feita com pano branco nos dias de sol, de roupa feita com pano cinzento nos dias de chuva e de roupa colorida ao nascer e ao pôr-do-sol.
O Imperador ficou tão contente que nomeou a sétima filha “tecelã”.
Ela tecia todos os dias. Quando se cansava, contemplava o mundo lá em baixo…
Uma vez, deu conta de um rapaz que cultivava a terra e que, quando se cansava, conversava carinhosamente com o velho boi que o ajudava…
O rapaz era o Pastor. Um dia, o boi disse-lhe:
- Amanhã, as sete filhas do Imperador Celestial vêm à Terra tomar banho. Se apanhares e esconderes a roupa de uma, podes casar com ela.

O rapaz aceitou a proposta do boi. E assim aconteceu. Quando as filhas do Imperador vieram tomar banho, ele pôs-se de atalaia.

Enquanto seis das irmãs conseguiram apanhar a roupa e voar para o céu, a mais nova, a tecelã, ficou. Ao reconhecer o rapaz, aceitou casar com ele.
Passaram dois anos e a tecelã deu à luz um menino e uma menina. A família tinha uma vida muito feliz.
Sete anos passaram no mundo e sete dias no céu. O Imperador dava uma audiência às filhas e percebeu que faltava a “tecelã”. Ordenou que a fossem buscar.
Ela não queria voltar, pois era muito feliz, mas levaram-na à força. O Pastor, agarrando nos filhos, foi atrás dela.
O boi deu-lhe um dos seus chifres para que fizesse um barco e seguisse para o céu. Mas o Imperador estendeu a mão e desenhou um rio tão caudaloso que separou a tecelã e o pastor.
Nesse momento, multidões e multidões de pegas e outros pássaros formaram uma ponte sobre o Rio de Prata para juntar a família.
O Imperador Celestial acabou por permitir que a Tecelã se encontrasse com o marido e os filhos, na Ponte das Pegas, mas apenas uma vez por ano.
Hoje o céu veste-se de panos cinzentos, mas a voz da minha avó ilumina-o como se o sol brilhasse intensamente. Olho para cima e suspiro. Um pequeno pássaro acaba de levantar voo. Um voo suave, em direcção ao horizonte...

 

publicado por I.M. às 15:58

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